Soledad Villamil e o Festival de Inverno de Porto Alegre
Reconhecida internacionalmente por seu papel no filme O Segredo dos Seus Olhos, vencedor do Oscar em 2010, a atriz e cantora argentina Soledad Villamil possui uma carreira multifacetada que vai além do cinema. Ela também se destaca no teatro, no streaming, como na recente série Cilada, sucesso na Netflix, e na música. Atualmente, Soledad está em Porto Alegre como a principal atração da 11ª edição do Festival de Inverno, evento cultural gratuito que retorna após oito anos de hiato.
Na manhã de terça-feira (21), conduzi uma entrevista pública com a artista no auditório da Unimed Federação, uma das apoiadoras do festival organizado pela prefeitura. O encontro foi marcado por uma conversa descontraída, que incluiu até momentos de música ao vivo. Soledad é uma artista que vive pela arte e para a arte, e sua voz merece ser ouvida.
Conexão com o Rio Grande do Sul e a cultura local
Durante o bate-papo, Soledad compartilhou seu vínculo especial com Porto Alegre e o Rio Grande do Sul. “Sinto que Porto Alegre e o estado têm um imã que sempre me atrai. Já participei do Porto Alegre em Cena, do Festival de Inverno e até gravei um filme com o cineasta gaúcho Paulo Nascimento. Tenho uma afinidade muito forte com a cultura local, que se aproxima da cultura argentina. Isso me faz sentir em casa”, afirmou.
Sobre a situação atual na Argentina, a atriz não escondeu sua preocupação. “Estamos enfrentando uma crise econômica profunda. O governo fez ajustes severos nos salários e pensões, contrariando promessas feitas à população. Além disso, o desprezo pela cultura é alarmante, como a tentativa de derrubar uma lei que protege as pequenas livrarias de bairro, essenciais para a vida literária do país”, explicou.
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Identidade e permanência na Argentina
Apesar das adversidades, Soledad escolheu permanecer em seu país. “Tive a chance de morar em Madri e trabalhar bastante lá, mas nunca duvidei que meu lugar é a Argentina. Trabalhar com autores e equipes locais me dá felicidade e me estimula”, comentou. Ela ressaltou o orgulho de participar de projetos com forte identidade regional, como a série Cilada, gravada na Patagônia.
Ao abordar a questão da identidade, Soledad destacou: “Quando você conta uma história de um ponto de vista particular, você contribui para a diversidade no mundo. Isso impede que o mercado cultural seja homogêneo e plano. Acredito que o mundo precisa de diversidade.”
Reflexões sobre tecnologia, redes sociais e inteligência artificial
Ao ser questionada sobre a frase de Humberto Eco, que afirma que a internet deu voz aos imbecis, Soledad concordou e expandiu o tema. “A tecnologia, apesar de parecer algo novo, expõe velhas formas de expressão muitas vezes torpes. Estamos constantemente expressando sentimentos que não sentimos verdadeiramente, o que cria dificuldades nos vínculos pessoais. Embora tecnologicamente avancemos, emocionalmente ainda estamos no início”, explicou.
Sobre os haters nas redes sociais, ela afirmou de forma bem-humorada: “Sim, tenho haters no Instagram. Não chegam a me agredir diretamente, mas as redes amplificam essa torpeza. Todos querem estar certos, enxergam o outro como errado, e isso dificulta reconhecer nossa própria complexidade.”
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Quanto à inteligência artificial, Soledad admitiu sentir medo, mas tenta transformar esse sentimento em motivação. “O susto é uma reação ao desconhecido. Precisamos nos adaptar e usar a inteligência artificial de forma criativa, com consciência humana, para não nos perdermos em uma torrente tecnológica desumanizada”, declarou.
Planos futuros e significado da arte
Entre seus objetivos, Soledad revelou o desejo de dirigir teatro. “Cada vez me envolvo mais nos projetos a partir dessa perspectiva.”
Sobre o significado da arte, ela destacou seu valor essencial: “A arte é uma forma de estar no mundo, de observar e se relacionar com a vida. Em tempos tão materialistas, onde o impacto material é exigido, a arte parece inútil, mas é justamente essa conexão criativa e imaginativa que dá sentido à vida. Ela me salvou, permitindo acessar mundos além da realidade cotidiana, trazendo múltiplas possibilidades e perguntas sem respostas definitivas.”
Soledad se define como uma contadora de histórias, seja no cinema, teatro ou música, sempre buscando transcender o cotidiano e conectar as pessoas a novas realidades.
