Descobertas arqueológicas nas rotas dos tropeiros
Vestígios como corredores de pedra, taipas e ruínas de antigas fazendas estão sendo usados para reconstruir a trajetória das tropas de gado e mulas no Rio Grande do Sul. Pesquisadores do curso de Arqueologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) percorrem quatro municípios gaúchos para mapear essas antigas rotas do tropeirismo, um importante capítulo da história regional.
Esse trabalho conta com a colaboração do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e acontece em Bom Jesus, São José dos Ausentes, São Francisco de Paula e Santo Antônio da Patrulha, com previsão de conclusão dos estudos de campo até dezembro.
Metodologia e tecnologia a serviço da história
A equipe do projeto é composta por sete integrantes, entre professores, um doutorando e estudantes de graduação. Antes das visitas, fazem um levantamento documental e analisam imagens de satélite para identificar possíveis estruturas remanescentes das rotas históricas.
“Selecionamos os locais com base no estudo documental e imagens de satélite, identificando construções antigas. Depois, desenhamos mapas, inserimos os pontos no GPS e seguimos para o trabalho de campo”, explica Rafael Corteletti, professor do Bacharelado em Arqueologia da UFPel e integrante do projeto.
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No campo, o uso de drones, aparelhos de medição e georreferenciamento permite registrar os vestígios com precisão. Além disso, os pesquisadores conversam com moradores locais que conhecem a história das regiões visitadas.
O tropeirismo e a formação da cultura gaúcha
O tropeirismo desempenhou papel fundamental na colonização e na economia do Rio Grande do Sul desde o século 18. As tropas transportavam animais e mercadorias por diversas rotas que, ao longo do tempo, contribuíram para o surgimento de vilas, cidades e centros comerciais.
Para Corteletti, o levantamento revela que essa rede de caminhos era extensa e complexa, composta por múltiplas rotas e ramais que conectavam fazendas e vilas, fortalecendo o comércio regional. Parte dessas rotas ainda não consta nos registros oficiais, mas permanece viva na memória de moradores e pesquisadores locais.
O professor destaca que o tropeirismo se intensificou após o período missioneiro, quando o gado criado nas reduções jesuíticas passou a ser circulado pelo território. Com a ocupação portuguesa, o transporte de animais ganhou novas rotas e destinos.
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“Muitas cidades têm sua origem ligada a esses caminhos. Mais do que isso, o jeito de ser do gaúcho, a relação com os animais e a cultura da tropeirada são frutos desse momento histórico que começou por volta de 1720 e se estendeu até o século 20, quando os caminhões substituíram as tropas como meio de transporte”, contextualiza o arqueólogo.
Projeto em andamento e impacto esperado
O estudo começou a ser organizado em 2024, após uma chamada pública do Iphan motivada por demanda do Ministério Público. A proposta da UFPel foi selecionada, e os recursos do Ministério da Cultura foram liberados em 2026.
Ao final, os dados coletados serão reunidos no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG) do Iphan, e o grupo pretende produzir mapas, relatórios e catálogos sobre o patrimônio arqueológico encontrado.
Para os municípios envolvidos, o material poderá servir como base para iniciativas de preservação, educação patrimonial e turismo cultural. Para a arqueologia, a pesquisa amplia o registro dos vestígios que explicam como pessoas, animais e mercadorias circulavam pelo território gaúcho antes dos meios de transporte modernos.
