Uma conquista inédita para o Rio Grande do Sul
Natasha Ferreira, vereadora de Porto Alegre pelo PT, alcançou um marco histórico ao se tornar a primeira deputada travesti da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Com 54 mil votos, ela representa não apenas uma vitória pessoal, mas também um avanço significativo na representatividade política das pessoas trans na região.
Ela lembra que, antes de chegar à Assembleia Legislativa, foi a primeira assessora trans da casa, um feito que já indicava sua trajetória pioneira. Em 2024, Natasha também se destacou como a vereadora travesti mais votada em Porto Alegre. Na mesma eleição, a capital gaúcha elegeu Atena Rovena, do PSol, para a Câmara Municipal, ampliando a presença LGBTQIAPN+ na política local.
Compromisso com pautas além da identidade
Mais do que simbolizar representatividade, Natasha quer atuar com firmeza na Assembleia. Ela ressalta a importância de defender políticas que ultrapassem a questão identitária, especialmente diante do avanço da extrema-direita no país. Seu foco inclui a revisão dos contratos da CEEE Equatorial e da Aegea Corsan, além da defesa do funcionalismo público e da educação pública, pilares que embasarão seu mandato.
Nas políticas voltadas à comunidade LGBTQIAPN+, Natasha tem uma proposta clara: a criação de uma casa de longa permanência para pessoas LGBTQIAPN+ que estão envelhecendo. Essa ideia já vinha sendo estudada por ela durante o mandato na Câmara de Vereadores. Além disso, a deputada eleita pretende garantir a manutenção dos ambulatórios e políticas públicas existentes para essa população.
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Desafios no novo governo e a defesa dos direitos humanos
O governador eleito, Luciano Zucco (PL), planeja enxugar a máquina pública, medida que pode impactar negativamente os programas voltados à população LGBTQIAPN+. Natasha alerta que essa parcela da sociedade não foi contemplada nas propostas apresentadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o que acende um sinal de alerta para a defesa dessas políticas.
Com a eleição de Natasha, o PT passa a contar com nove representantes na Assembleia Legislativa, um recuo em relação aos 11 deputados eleitos em 2022, mas ainda assim uma bancada expressiva no cenário político gaúcho.
Um capítulo gaúcho em um movimento nacional
Para a cientista política Cibele Cheron, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a eleição de Natasha integra um movimento nacional de fortalecimento da presença trans na política, iniciado em 2018 com a eleição de Erica Malunguinho, do PSol de São Paulo. A votação expressiva da deputada gaúcha, que é a 22ª mais votada no Estado, comprova que sua eleição foi conquistada por mérito político e apoio popular, não apenas pelo nicho identitário.
Cibele destaca que a presença crescente dessas lideranças indica a consolidação de um novo cenário político, no qual a participação de minorias deixa de ser exceção para se tornar regra. Ela ressalta ainda a complexidade do Brasil, que lidera o ranking mundial em violência contra pessoas trans, mas também é pioneiro na eleição de representantes desse grupo.
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Transformação e inspiração para futuras gerações
Natasha confessa que, no início da trajetória política, não imaginava chegar à Assembleia Legislativa. Sua atuação sempre esteve mais ligada à demarcação de espaços e à construção de ideias que conquistaram o apoio de diversos segmentos da sociedade, incluindo mulheres, idosos, negros, brancos e pessoas de diferentes classes sociais.
Com a experiência de dois anos na Câmara Municipal, ela agora tem a oportunidade de influenciar a agenda política estadual, trazendo temas até então negligenciados, como a inclusão no mercado formal de trabalho para pessoas trans, o uso do nome social no serviço público estadual e o combate à violência.
Cibele Cheron reforça que a presença de Natasha no plenário tem o potencial de desestimular discursos de ódio, pois a proximidade pessoal torna esses ataques mais difíceis de serem mantidos. Além disso, a representatividade inspira jovens transexuais de várias cidades do Rio Grande do Sul a acreditarem na possibilidade de ocupar espaços políticos.
O impacto da eleição de Natasha vai além do simbólico. Ela abre caminho para que futuras candidaturas de pessoas trans cresçam, consolidando uma mudança real na política estadual. A chegada dela à Assembleia Legislativa marca um momento de avanço e esperança para diversas comunidades que buscam voz e reconhecimento.
