Impactos das Secas e Perdas na Produção
O agronegócio do Rio Grande do Sul, pilar da economia estadual, enfrenta uma série de obstáculos que dificultam a continuidade e a expansão da produção. Entre 2020 e 2025, o estado deixou de colher 48,6 milhões de toneladas de grãos em relação ao esperado, conforme levantamento da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul). Esse déficit provocou perdas diretas de R$ 126,3 bilhões no setor, que, ao somar os efeitos nas indústrias, comércio e serviços, ultrapassou R$ 319,2 bilhões.
Para o produtor Erico Toniolo, de Viamão, que cultiva milho e cria gado, os eventos climáticos tornaram incerto até o planejamento básico do trabalho no campo. “A gente não pode fazer dívida contando com o que vai colher, porque não sabe se vai colher”, relata.
Irrigação: Uma Estratégia para Enfrentar a Estiagem
Como resposta às secas frequentes, a ampliação da irrigação tem ganhado espaço. Na safra 2025/2026, quase 100% da área de arroz do estado estava irrigada. Já o milho contou com 17,4% da área irrigada, e a soja, apenas 3,8%, segundo dados da Secretaria da Agricultura do RS.
Leia também: Gaúchos pelo mundo mantêm tradições do Rio Grande do Sul com eventos e costumes
Leia também: Educação de Excelência no Ceará Confronta Desafios na Retenção de Talentos Qualificados
Em São Luiz Gonzaga, o produtor Carlos Eduardo Braga Pires investe em sistemas de irrigação desde 2012, destacando que a tecnologia reduz os riscos e aumenta a previsibilidade da colheita. O governo estadual mantém um programa que subsidia até 20% dos custos para projetos de irrigação e reservação de água, limitando o benefício a R$ 150 mil por produtor. Além disso, entidades do setor buscam ampliar linhas de crédito e incentivos fiscais para popularizar o acesso a essas tecnologias.
Preocupação com o Endividamento no Campo
O endividamento é outro desafio que impacta diretamente os produtores. O Rio Grande do Sul acumula R$ 45 bilhões em operações de crédito atrasadas, inadimplentes ou renegociadas. No segmento da produção de leite, a queda no número de produtores é expressiva: de 84 mil em 2015 para 29 mil em 2025, segundo a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do RS (Fetag-RS). A instabilidade nos preços e o aumento dos custos dificultam a retomada dos investimentos.
Nilson Luiz Costa, coordenador do Núcleo de Pesquisas em Economia do Agronegócio da UFSM, destaca que a solução para o endividamento deve ir além da renegociação. Ele aponta que ações de curto, médio e longo prazo, como o incentivo à irrigação, o fortalecimento do seguro rural privado e do Proagro, são essenciais para criar uma política pública eficaz de resiliência climática. A diversificação das culturas também é um ponto importante para melhorar a sustentabilidade financeira dos produtores.
Leia também: Hidrogênio Verde no Rio Grande do Sul: Revolução no Adubo e na Agricultura Sustentável
Leia também: Agronegócio impulsiona 39% dos empregos formais da indústria no Rio Grande do Sul
Investimentos em Tecnologia e Manejo do Solo
O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) defende que a tecnologia e a pesquisa são fundamentais para tornar o setor mais resistente aos eventos climáticos extremos. Eduardo Condorelli, superintendente do Senar/RS, explica que a recuperação e o manejo do solo melhoram significativamente a produtividade. Ele exemplifica que a produção tradicionalmente alcançava entre 26 e 28 sacos de soja por hectare, mas, com essas práticas, o rendimento pode chegar a 54 ou 56 sacos em anos de estiagem.
Desafios da Sucessão Rural
Além dos impactos climáticos e financeiros, o agronegócio gaúcho enfrenta a dificuldade de manter os jovens no campo. Em Bozano, na região Noroeste, o produtor Armando Zanetti, que dedicou cinco décadas à lavoura, aguarda que o filho Gian Zanetti continue o trabalho iniciado por ele. Essa continuidade, no entanto, é uma exceção diante da tendência de evasão dos jovens da zona rural.
Entidades do setor defendem políticas específicas para a juventude rural, com foco em crédito, assistência técnica, formação e estímulo ao empreendedorismo. Para produtores e especialistas, a preservação do agronegócio gaúcho depende de ações que reduzam os riscos climáticos, ampliem a proteção financeira, promovam a tecnologia e criem condições para que a nova geração permaneça no campo e dê continuidade ao legado rural.
