Vitória expressiva da direita no Rio Grande do Sul
As eleições realizadas no domingo (4) remodelaram a configuração do Legislativo no Rio Grande do Sul. Luciano Zucco (PL) foi eleito governador, conquistando a maioria expressiva em 475 dos 497 municípios gaúchos. O Partido Liberal (PL) emergiu como a maior bancada na Assembleia Legislativa. Nas duas vagas em disputa para o Senado, Ubiratan Sanderson (PL) e Marcel Van Hattem (Novo) foram os vencedores. Em entrevistas concedidas ao Brasil de Fato RS, a cientista política Elis Radmann, o presidente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) no estado, Edison Puchalski, e o deputado estadual e presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) gaúcho, Valdeci Oliveira (PT), apresentaram suas interpretações sobre os resultados e as perspectivas futuras.
Conservadorismo e desejo de renovação nas urnas
Para Elis Radmann, os resultados de 2026 são fruto de tendências já presentes no estado. “O Rio Grande do Sul já indicava uma presença significativa da direita”, destaca. Em 2022, Jair Bolsonaro (PL) obteve 56,35% dos votos válidos no segundo turno da eleição presidencial no estado. Pesquisas do Instituto Pesquisas de Opinião (IPO) apontavam que 54,8% dos gaúchos se identificavam com valores sociais e morais conservadores. Ao questionar o posicionamento político, o estado aparecia dividido em três terços: esquerda, independentes e direita. Radmann explica que “a base conservadora em valores é maior que a identificação partidária com a direita”.
Outro elemento decisivo em 2026 foi o desejo de mudança no governo estadual, presente em cerca de três quartos do eleitorado, segundo pesquisas do IPO. “Zucco conseguiu reunir dois aspectos: dialogar com o eleitorado conservador e representar a mudança”, afirma a pesquisadora. Essa combinação foi reforçada por uma narrativa econômica otimista, mesmo diante da percepção de que o Estado não avançava no ritmo esperado.
A vitória em 475 municípios evidencia que o apoio à direita não se restringiu a regiões específicas ou perfis urbanos. Houve capilaridade no interior, nas cidades médias e avanços na região Metropolitana. A segurança pública, associada a valores de ordem e autoridade, foi uma pauta presente na trajetória de candidatos eleitos, como Sanderson, que construiu sua carreira em torno das forças policiais. Redes sociais intensificaram essa mobilização, facilitando a comunicação direta com eleitores alinhados a essas pautas.
Radmann também observa o enfraquecimento dos partidos centristas tradicionais no estado. O PL ampliou sua bancada de cinco para 12 deputados estaduais entre 2022 e 2026, assumindo papel central na Assembleia. A cientista política destaca que essa reorganização partidária representa a emergência de uma direita mais ideologicamente definida, sem que o estado tenha “simplesmente acordado mais à direita”. Os valores conservadores já presentes encontraram uma oferta política capaz de associá-los ao anseio por mudança e prosperidade, além da rejeição aos grupos que governavam até então.
Composição da Assembleia Legislativa e bancada federal
O PL é a maior bancada na Assembleia Legislativa, com 12 das 55 cadeiras. O PT terá nove deputados, o Progressistas (PP) sete, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e o Partido Social Democrático (PSD) cinco deputados cada. Radmann explica que, apesar da vitória de Zucco, o partido não alcançou maioria absoluta no Parlamento. A coligação do governador eleito elegeu 27 deputados estaduais, 49% das cadeiras, ficando um voto abaixo dos 28 necessários para maioria. Isso coloca MDB, PSD e outras bancadas em posição estratégica para negociações. “Em pautas mais complexas, o governo terá que construir acordos”, ressalta a pesquisadora.
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Fonte: atividadenews.com.br
Na Câmara dos Deputados, o Rio Grande do Sul elegeu 31 parlamentares, sendo oito do PL, que assume a maior bancada estadual. O PT elegeu cinco, e o PP quatro deputados federais. A coligação de Zucco conquistou 19 cadeiras. Radmann destaca que esse alinhamento pode facilitar a defesa de pautas estaduais em Brasília, mas alerta que deputados federais também respondem às estratégias partidárias nacionais, o que pode limitar a uniformidade do voto.
Três senadores gaúchos no campo da direita
Os senadores eleitos Ubiratan Sanderson (PL) e Marcel Van Hattem (Novo) substituirão Paulo Paim (PT) e Luis Carlos Heinze (PP). Com a permanência de Hamilton Mourão (Republicanos) até 2031, o Rio Grande do Sul terá três senadores alinhados à direita, tornando a representação mais homogênea ideologicamente. Radmann observa que o Senado brasileiro também se deslocou para a direita, com o PL elegendo 19 senadores e projetando iniciar 2027 com 28 das 81 cadeiras — a maior bancada da Casa.
O peso político da bancada gaúcha poderá aumentar caso os senadores atuem de forma articulada, ocupem posições estratégicas em comissões e estejam alinhados com os maiores blocos nacionais. Além de legislar, o Senado analisa indicações para o Supremo Tribunal Federal (STF), Banco Central e outras instituições, e lida com processos contra autoridades, o que reforça a importância da atuação parlamentar coordenada.
Leitura do PCdoB sobre o cenário político
Edison Puchalski, presidente do PCdoB no estado, destaca o crescimento do partido no Brasil e no Rio Grande do Sul. Daiana Santos (PCdoB) foi reeleita deputada federal com 114.315 votos, a segunda maior votação da federação, e Humberto Matos (PCdoB) retornou à Assembleia Legislativa. Puchalski avalia o resultado como parte de um movimento global e regional, em que parte da população se identifica com o discurso antissistema da extrema direita, sem perceber que a crise do capitalismo é a origem dos problemas.
Para o dirigente, o campo progressista demonstrou resistência, elegendo 10 deputados estaduais na federação formada por PT, PCdoB e Partido Verde (PV). Ele destaca a necessidade de organização política permanente, presença nos territórios e diálogo com as demandas concretas da população. Puchalski indica que a atuação parlamentar deve ser acompanhada de mobilização nas ruas e nas redes, focando na defesa da educação pública, direitos trabalhistas e igualdade de gênero e racial.
Posicionamento do PT diante dos resultados
Valdeci Oliveira, presidente do PT gaúcho, classificou o resultado eleitoral como adverso e defendeu a rápida assimilação do cenário para trabalhar pela vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno. Oliveira enfatiza a necessidade de diálogo para reverter o quadro nacional e alertar a população sobre os riscos do retorno do bolsonarismo, que prejudicaria os mais vulneráveis, especialmente nas áreas de saúde, educação e segurança.
O deputado também criticou o grupo político adversário, acusando-o de conspirar contra a economia brasileira. “Agora é Brasil ou são os traidores da Pátria no poder”, afirmou. Oliveira destacou que a agenda da extrema direita é “antipovo” e contrária aos interesses nacionais, e que o partido fará todos os embates necessários no Legislativo, nas redes sociais e nas ruas para barrar essas iniciativas.
Desafios e estratégias para a esquerda no RS
Para Puchalski, a nova composição do Legislativo, com maioria da direita na Assembleia e na bancada gaúcha no Senado, representa desafios em áreas como educação, ciência, direitos trabalhistas e políticas de igualdade. Ele defende uma atuação combinada entre denúncia parlamentar, mobilização popular e unidade com movimentos sociais para enfrentar essa realidade.
O PCdoB pretende fortalecer sua presença nos municípios, junto a movimentos sociais, sindicais, de mulheres, jovens, LGBTI+ e na luta antirracista. A deputada Daiana Santos continuará representando essas pautas na Câmara, ampliando a articulação com a bancada progressista. Puchalski ressalta a importância de ampliar a influência social e construir uma alternativa política capaz de dialogar com os trabalhadores e as demandas atuais do povo gaúcho.
Oliveira reafirma que o foco do PT está na campanha nacional de Lula, dedicando-se integralmente ao pleito presidencial. Sobre a atuação na oposição e articulação partidária, ele adiantou que será tratada posteriormente, priorizando agora a mobilização nas ruas e digital para garantir a vitória no segundo turno.
